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Apologia à institucionalização da mentira

por Debson Luís

Segue todos os anos, conforme uma tradição popular, um dia em que a mentira tem a sua glória quando pregamos pequenas peças uns nos outros a fim de nos confraternizarmos ao nos apropriarmos de si indiscriminadamente. É o dia 1° de abril. Quem entre nós nunca caiu numa dessas peças? Mas a questão deveria ser outra. Quem entre nós mente indiscriminadamente e sem pudor algum somente no dia 1° de abril? Quantos de nós caímos em peças pregadas diariamente, que não só no 1° de abril?

Pretende-se provar aqui que a mentira é um elemento cultural, quase orgânico (se não o for), e que nos acompanha desde o início de nossa história como nação, muito embora não se haja a ambição de compor uma tese, mas apenas evidenciar quão importante é a mentira para nós, brasileiros.

Comecemos pelo descobrimento. Pronto! Eis aí a primeira mentira. Nos bancos escolares sempre nos foi ensinado que o navegante português Pedro Álvares Cabral teria se perdido em alto-mar por conta de uma tempestade quando ia para as Índias chegando, por acaso, à nossa costa descobrindo assim o Brasil. Sabe-se hoje, por conta de inúmeras pesquisas realizadas, que Pedro Álvares Cabral veio intencionalmente para cá, pois se suspeitava da existência de terras nesta região por conta da viagem que Vasco da Gama fez às Índias e, para desviar das calmarias da costa africana, desceu o Atlântico mais a leste e, ao passar nas proximidades da costa sul-americana, avistou pássaros (indício de que havia terra por perto). Mas Vasco, por conta de suas provisões seguiu viagem e relatou sua observação ao retornar a Portugal. De fato, Pedro Álvares Cabral saiu de Portugal com destino às Índias (como eles chamavam na época a Índia), mas antes ele deveria averiguar se realmente Vasco da Gama estava certo, se realmente havia terras por aqui, e foi assim que fomos "descobertos".

Nossa história está repleta de mentiras. São tantas que daria um livro bem espesso, diga-se de passagem. Citemos mais duas ou três superficialmente, pois senão trataremos apenas do passado enquanto nosso presente é rico da mesma forma em mentiras e pretende-se enumerar algumas também.

Um de nossos maiores heróis pátrios, Duque de Caxias, tido como o grande estrategista, o vencedor da Guerra do Paraguai, foi, na verdade, um genocida covarde. De crianças a idosos, de deficientes a mulheres. Ninguém foi poupado por onde passaram as tropas brasileiras que, após terem atropelado as tropas paraguaias em território brasileiro, adentraram o território paraguaio, munidas com equipamento bélico inglês até os dentes, e em seu trajeto até Assunção massacraram quem encontraram pela frente: tanto fazia se eram soldados inimigos ou civis inocentes.

Como foi boazinha com os negros a princesa Isabel ao assinar a Lei Áurea, não? Não mesmo. Havia um movimento externo a fim de se extinguir a escravidão, encabeçado pela Inglaterra, e as pressões sobre o Brasil, o último país a abolir a escravatura, chegaram a ameaças de invasão se não libertássemos os negros. Como foram bonzinhos então os ingleses com os negros. Errado. O que os ingleses queriam, na verdade, era implementar o trabalho assalariado para criar, dessa forma, um mercado consumidor para seus produtos industrializados. Lembremos que a Inglaterra é o berço da Revolução Industrial estando, portanto, à frente dos demais países e queria lucrar muito por conta disso antes que os outros também se industrializassem.

Outros heróis de nossa pátria são os bravos bandeirantes que adentraram o Brasil enfrentando muitos perigos, animais selvagens, "ameaçadores" índios... que foram, praticamente, exterminados por onde passaram as "corajosas" (e muito bem armadas) bandeiras.

Como se vê, nossa história, da forma como nos foi ensinada, também é responsável pela legitimação da mentira enquanto aspecto cultural. Os exemplos citados acima são apenas uma amostra do quanto a mentira está arraigada em nossas vidas, em nossos costumes.

Nós vivemos num país de mentira. Estamos entre as dez potências econômicas do globo e, no entanto, possuímos uma população em torno de 32 milhões de miseráveis. Praticamente um quarto dos brasileiros vive em condições subumanas. Diz a Constituição que todos somos iguais perante a lei. Somos mesmo? Como se explica então baseado neste princípio, os privilégios concedidos ao ex-juiz Nicolau dos Santos Neto em relação ao Zé Ninguém, preso nas masmorras do Carandiru por assalto a mão armada? Muitíssimo provavelmente, se os 169 milhões de reais desviados na construção do prédio do TRT de São Paulo tivessem sido aplicados na educação, muitos "Zé Ninguém" teriam tido uma outra perspectiva de vida e nunca teriam ingressado na criminalidade. Ou seja, um dos responsáveis pelos altos índices de criminalidade atuais é o próprio ex-juiz, que aguarda julgamento em sela especial. Outro dado que comprova a mentira do "somos todos iguais perante a lei" revela uma outra mentira ainda maior: que não há racismo em nosso país ou, no máximo, casos isolados. Quem é negro, ainda mais pobre, sabe disso muito bem. Basta observar as estatísticas. A maioria de nós brasileiros é negra. No entanto, a maioria dos que conseguem ingressar numa universidade ou num bom emprego é branca, restando aos negros os empregos braçais evidenciando até uma outra mentira histórica: será que houve mesmo abolição da escravatura? Claro que o conceito de escravidão nos tempos presentes difere em certos aspectos ao conceito empregado nos séculos XVIII e XIX. Talvez o aspecto que mais nos chama a atenção é que nossa sociedade, dominada, controlada por brancos, continua subjugando e subordinando os negros como outrora.

Mas os campeões, os mestres da mentira são, sem sombra de dúvida, nossos políticos. Talvez nem seja necessário expor um argumento sobre esse tema. Basta ligarmos a televisão e vê-los lá, mentindo o tempo todo e descaradamente. Citemos apenas dois exemplares dessa casta que têm transbordado na mídia nos últimos meses: Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho. Ambos apresentam acusações, dossiês comprometedores. Ambos propõem à instauração de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) a fim de se investigar as denúncias recíprocas. É o festival da mentira. Então por que não institucionalizarmos a mentira e transformarmos o dia 1° de abril em nossa data comemorativa mais importante? Com a mentira institucionalizada poderia se criar, por exemplo, o ministério da mentira, um fundo de amparo aos mentirosos do Brasil, faculdades com cursos de balelas com especialização em fingimento e mestrado em charlatanice. Isso nos tornaria aptos a conquistar o mundo enganando a todos com lorotas acadêmicas. Poderíamos com nossas mentiras intelectualizadas inverter, ou reverter, todos os valores que são baseados no que é verdade ou não, em nosso próprio benefício, como já fazemos entre nós há muito tempo.

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