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Mídia de rabo preso em ACM

por Alberto Dines

Conhecendo-se minimamente a biografia do ex-presidente do Senado, chama a atenção a atitude passiva e defensiva com que são recebidas as suas denúncias. Ninguém reage. Todos enfiam o rabo entre as pernas. Como se ao cabo de meio século de vida pública (grande parte do qual a serviço do regime militar) o político baiano tivesse conseguido manter-se como exemplo de honradez e virtude.

Digamos que a sua gestão como presidente da Eletrobrás (1975-1978) tenha sido irrepreensível, e que na construção de Itaipu e outras grandes barragens a escolha de empreiteiras e fornecedores tenha obedecido a rigorosos padrões éticos.

Digamos que no auge da censura e da autocensura ACM tenha ignorado os pactos de sangue com jornais & jornalistas e realizado uma administração aberta ao escrutínio não apenas dos contemporâneos, mas também dos pósteros. Impossível, mas vale como hipótese de trabalho.

No entanto, foi acompanhada de perto a passagem de ACM pelo Ministério das Comunicações (1985-1990), durante todo governo Sarney, quando não havia mais censura e a imprensa reaprendia a desvencilhar-se da subserviência. Está nas coleções de jornais (Veja, àquela época, era o carro-chefe do carlismo). Ninguém se anima a pesquisar.

A dupla Sarney-ACM foi a maior distribuidora de concessões de emissoras de rádio e TV de todos os tempos. Se grande parte dos legisladores federais hoje está no negócio de mídia - o que lhes garante estar ao mesmo tempo no negócio da política - isto se deve à diligente distribuição de benesses promovida por ACM. E não apenas na Bahia, mas pelo Brasil afora.

Quantos deputados e senadores assinariam uma CPI sobre concessões de rádio ou de TV? A mídia, hoje, teria ânimo de remexer em algo que põe em xeque sua própria credibilidade?

Mais grave do que isso foi o episódio da NEC do Brasil, narrado com tantas minúcias no recém-lançado Memórias das trevas, de João Carlos Teixeira Gomes (pág. 335-6), por sua vez amparado no livro-denúncia do ex-presidente daquela multinacional, Mario Garnero (Jogo Duro, Ed. Best Seller, 1988, pág. 253).

ACM, ministro das Comunicações, arrancou a NEC das mãos de Garnero e a entregou ao Grupo Globo. A operação custou a bagatela de 1 milhão de dólares. A mesma empresa foi vendida recentemente por 36 milhões de dólares aos seus donos originais sem que os amigos de ACM tenham investido um tostão durante todos estes anos. Em troca, a emissora de ACM (TV Bahia) ganhou a programação da Globo que havia 18 anos estava nas mãos da TV Aratu, de Salvador - uma mina de ouro.

Qual o veículo e qual o jornalista que teriam a disposição para contar todos os lances da escabrosa história sabendo de antemão que seria boicotado por 90% da mídia nacional?

A Folha de S. Paulo, com o seu impecável topete de independente e fabuloso apetite para denúncias, estaria disposta a contar uma história que passados 13 anos pode macular atuais parceiros, colaboradores e amigos?

Mario Garnero não atende o telefone? Alguém tentou entrevistá-lo? Vale a pena experimentar. De quebra, o financista poderia adiantar detalhes pitorescos sobre a lista de importantes jornalistas que recebiam regularmente da Brasilinvest um envelope recheado de dólares.

Jader Barbalho não vale um caracol. Mas pelo menos temos a satisfação de ler todos os dias mais um escandaloso lance da sua vida financeira.

Antonio Carlos Magalhães vale o mesmo caracol. Mas a cada dia que passa amargamos a terrível constatação de que a imprensa brasileira não se dispõe a meter a mão no seu passado - teria que expor também o seu.

Fonte:

Observatório da Imprensa

www.observatoriodaimprensa.com.br

 

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