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A ditadura nos anos 90

por José Robson S. R. Almeida Jr.

Há um ano e dois meses tive a oportunidade de ingressar em um curso universitário. Talvez seja esse o momento único em que milhares de jovens brasileiros possam, mesmo que inconscientemente, avaliar a falta de sentido nos caminhos traçados pela juventude atual. Sem dúvida alguma, vivemos e presenciamos uma época sem nenhum tempero juvenil, um verdadeiro mosaico de alienação sustentado por um bombardeio mercadológico e modista que sempre foi e será frustrante para as futuras gerações, as quais aguardamos com aquela velha fé católica, brasileiramente linda, de acreditar no amanhã.

Não me refiro ao ingresso nas universidades como algo decepcionante, mas, sim, à maneira a qual chegamos. Somos treinados como verdadeiras máquinas. Ganhamos um leque de conhecimentos mal trabalhados que são proferidos nos tablados dos cursinhos, que são a prova maior da deficiência educacional no Brasil. O aluno não absorve a cultura, apenas a pega emprestada para resolver alguns testes. Depois o processo é deletério e a universidade passa a não mais existir no sentido amplo da palavra universo, compilado de idéias, expansão de pensamentos; conseqüentemente, essas formam, todos anos, grandes tecnocratas em um mundo tão carente de relações e encanto humano.

É algo memorável lembrar da geração dos anos 60/70 que vivera o drama da repressão militar. No entanto, balizou-se todo o pensamento e cultura para o ideal de pátria livre e democrática. E hoje, porém, vivemos, de certa forma, uma ditadura camuflada, anticultural por parte da mídia, cinema e até escolas/universidades. Basta lembrar os movimentos que marcaram os anos 90. Todos eles corporais.

Assistimos, vibrantes, a explosão da lambada no começo da década, ocasião essa em que a Rede Globo criara uma novela ridícula, diga-se de passagem, que conclamava o público a dançar a lambada na sua vinheta e explicava em seu conteúdo que a vida brasileira era mesmo injusta, mas que poderia alguém se tornar um dia uma rainha da sucata.

No embalo das coxas brasileiras um leve balanço no cérebro. E aí pintamos as caras, conforme mandava o senhor Roberto Marinho e alguns congressistas tão carentes do dinheiro público, mal repartido por aquele homem esportista, da moda, do gel, collorido. Perdão, balançaram não, inverteram o cérebro nacional assim como os valores éticos e morais.

Colorida, também, foi a vitória de 94. O Brasil emocionado vibrou. Até ganhamos naquele campeonato um jogo contra os EUA no dia de sua independência, 4 de julho, e em sua casa. E talvez, no dia 4 de outubro daquele mesmo ano, fomos liquidados e conquistados por eles para o resto de nossas vidas.

E aí vieram outros 90. O corpo nunca se mexeu tanto e tão inutilmente. Os meninos, os rapazes se mascararam cada vez mais, perdendo toda a essência através da necessidade de demonstração dos vigores e das conquistas físicas. E aí lotamos as academias e esvaziamos as bibliotecas.

Viva o corpo! E somente ele. Nunca uma geração se beijou tanto. Aliás, criamos até a guerra do beijo e também nos unimos tanto na dança da macarena. Nunca uma geração talvez tenha sido tão anti-romântica, antiprodutiva e antiesperança como essa.

Isso, é claro, sem contar com a consolidação definitiva da fêmea-objeto, da fêmea-sexo. E o pior é que grande parte aderiu muito bem. Entraram de alma e bunda nesse tempo sem nenhum rumo.

As universidades se afastaram cada vez mais do objetivo político, social e cultural e a velha UNE hoje é motivo para se pedir descontos nos cinemas para assistir o Titanic com a namorada ou se emocionar em shows de bandas hoje consagradas como Tchan, Bonde do Tigrão e outros hits que embalam a nossa geração.

Será realmente difícil explicar para nossos filhos como uma era livre conseguiu formar tantos escravos com o intuito de impedir sempre qualquer forma de idéia. Aliás, ser livre e pensar é algo realmente "perigoso". E a nós, poucos de nós, restou apenas uma maneira individualista, maquiavelicamente correta de conquistar um espaço.

É honroso saber que alguns jovens, como o criador do site Manifesto Navegante, estão preocupados em formar opinião e emití-las, mesmo que sejam fortes. Pois como já dizia Dias Gomes: "Quem não veio ao mundo para incomodar não deveria ter nem nascido".

Somente no momento em que a juventude brasileira perceber que toda sabedoria, força e vontade de luta principiam de si própria; que a vida está ao seu lado e o mundo a sua frente será possível o sonho da remodelação sócio-cultural da reversão de valores, enfim, será possível a conquista da velha e verdadeira liberdade, sonhada eternamente.

"Faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há, mas eis que chega

a roda viva e carrega a roseira pra lá"

Chico Buarque de Holanda

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