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Onde estão os caras-pintadas?

por Debson Luís

Muita gente afirma que 1992 foi um ano memorável para a história política brasileira. Naquele ano, pela primeira vez em nossa história republicana, foi derrubado um presidente comprovadamente envolvido até o pescoço em corrupção. Mas a queda de Fernando Collor de Melo não teria sido possível se não fosse, principalmente, pela mobilização dos cidadãos brasileiros, em especial, a juventude que entrou em nossa história oficial como a geração dos caras-pintadas.

Quão orgulhosos nos sentimos ao rever aquelas imagens, do povo nas ruas das grandes capitais, todos com os rostos pintados em verde e amarelo, com faixas e cartazes clamando aos gritos "fora Collor"! Realmente, fora aquele um episódio inesquecível.

De lá para cá muita água passou por baixo da ponte de nossa história recente, muita coisa mudou. Mudou mesmo? O impeachemant de Collor serviu como lição para moralizar a classe política nacional, sempre tão corruptível? A participação popular foi mesmo decisiva para a queda do ex-presidente? Até que ponto aquela mobilização dos caras-pintadas foi espontânea e consciente e até que ponto houve manobra?

Se o impeachemant de Collor foi uma lição, nossos políticos não prestaram a devida atenção e tampouco fizeram o dever de casa, pois basta observarmos que a corrupção ainda é o tema predominante nos meios de comunicação. Citarei um exemplo: o decoro parlamentar de ACM e José Roberto Arruda que violaram o sigilo do painel eletrônico de votações no plenário do Senado. Pensando bem, melhor citar alguns mais: os inúmeros escândalos na desastrosa administração Pitta na prefeitura de São Paulo; as acusações ao senador Jader Barbalho (PMDB-PA, presidente do Senado) de enriquecimento ilícito e envolvimento com fraudadores da SUDAM; o desvio de 169 milhões de reais na construção do prédio do TRT em São Paulo envolvendo o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto e o ex-senador Luiz Estevão; as suspeitas de irregularidades nos processos de privatização; e são tantos outros inúmeros casos Brasil afora que preencheriam uma lista que transcenderia os limites da compreensão humana. Ou seja, a corrupção está aí, continua muito bem instalada no cenário político brasileiro e parece que nunca terá fim.

É interessante observar como foi atuante e sempre presente a mídia ao final da Era Collor. Aliás, certamente sua atuação foi fundamental para a mobilização popular em nível nacional, principalmente a atuação da televisão, em especial a Rede Globo que, importante lembrar, exibiu partes do debate promovido por si entre Collor e Lula em seus telejornais, sempre editadas de maneira suspeita já que só se via Collor surrando o seu adversário e nunca o candidato do PT se defendendo ou golpeando o jovem, belo, inteligente e esportista Fernando Collor de Melo, "o caçador de marajás, o homem que moralizou a política alagoense". A Rede Globo construiu uma imagem e vendeu um produto numa linda embalagem, porém sem conteúdo aproveitável. A maioria de nós, eleitores, compramos este produto ao elegê-lo presidente da república. E ao consumirmos o conteúdo daquela atraente embalagem tivemos todos uma bela indigestão. Inclusive a Globo que tratou de mobilizar logo, ou melhor, influenciar a opinião pública denunciando as atrocidades naquele governo. Então pintamos as caras e fomos às ruas pedir a cabeça de Collor. E diante da pressão exercida, tanto pela mídia quanto pela opinião pública (?), cassaram o presidente. Em outras palavras, pintamos as caras, ao menos em grande maioria, segundo o dito da mídia. Claro que não dá para negar que muita gente pintou a cara conscientemente, que essa gente, de fato, protestou a favor da ética e contra o mar de lama, de falta de caráter, de corrupção que tomava conta do país. Mas... teve gente, muita gente mesmo, que também pintou a cara por farra, para matar aula, para se divertir naquele carnaval temporão sem qualquer compromisso com aquele momento histórico.

E hoje, quando ligo a TV e vejo a corrupção escorrer pela tela, inundando com sujeira, com violência, com ignorância, com miséria, com fome, com falta de vergonha a minha casa, a cidade e o Estado onde moro, o país inteiro, me pergunto: onde estão os caras-pintadas? Diante da apatia popular a esse outro momento histórico, atual e talvez mais mergulhado no caos da pilantragem, só posso concluir que eles, os caras-pintadas, hibernam, dormem serenos num sono profundo cujo despertar só se dará ao toque daquela corneta, como é mesmo que ela fazia? Ah, sim: "plim-plim".

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