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O poder é nosso

por Debson Luís

A nossa historiografia costuma ser injusta com o povo o colocando, muitas vezes, à margem do processo histórico. É verdade que houve momentos em que, de fato, o rumo de nossa história foi decidido por aquela minoria abusada que detinha o poder, controlava o país. Mas houve também grandes momentos que traçaram, com a mesma importância, os caminhos que nos conduziram ao que somos hoje como nação com uma intensa participação popular.

Na proclamação da república em 1889, ao sair pelas ruas do Rio de Janeiro as tropas do exército sob o comando do marechal Deodoro da Fonseca em direção ao Ministério da Guerra, onde se consumou o fim do período monárquico no Brasil, muitos populares, sem entender o que se passava, viram aquele evento como uma parada, um desfile militar. Mal sabia o povo a importância daquele momento para a nossa história. Esse é um exemplo da marginalização popular em relação ao processo.

No entanto, existiram outros momentos de intensa adesão popular como a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada, a Guerra dos Farrapos. Isso tudo só no período regencial. Pela independência brasileira poderíamos citar a Inconfidência Mineira, se não fosse um movimento tão elitizado, embora tivesse a simpatia de uma boa camada da população mineira, mas não sua efetiva participação. Contudo, pode-se citar outros movimentos precursores de nossa independência onde a participação do povo foi bastante expressiva como a Guerra dos Emboabas, a Rebelião de Felipe dos Santos, a Conjuração Baiana e a Revolução Pernambucana.

Mais próximo à nossa época encontramos os movimentos estudantis no período da ditadura do golpe de 64, a greve de 41 dias do ABC paulista, em 1980, os clamores populares pelas Diretas Já nas ruas das grandes capitais brasileiras, em 1983, e, até mesmo, a queda de Collor, em 1992.

Talvez, em função da forma como nos foi ensinada a nossa história e/ou de como ela esteja registrada, a importância da participação popular no delinear de todo o processo nos parece algo distante, inatingível, quase uma ficção. Como se o povo não tivesse poder de decisão, como se a decisão histórica coubesse somente a uma minoria que detém o poder quando isso não é verdade. O poder está conosco e isso é garantido pelo próprio regime que adotamos com o nome democracia (do grego, demo = povo + cracia = governo, ou governo do povo). E mais uma vez a história nos chama a manifestar esse poder. O Brasil que desejamos depende disso, depende somente de nós.

Será inútil a nossa indignação com o que tem ocorrido no Senado Federal se simplesmente virarmos as costas para os fatos e dizer que não tem jeito, que isso sempre foi assim e sempre será, que não queremos nos envolver etc. E como podemos não nos envolver se nossas vidas dependem do que acontece não só no Senado, mas no Congresso como um todo, no Itamaraty, na Esplanada dos Ministérios, nos palácios e câmaras estaduais, nas prefeituras e câmaras municipais?

Tem razão a senadora Heloísa Helena ao dizer que o mundo sujo da política nos assusta e faz com que nos distanciemos dele. E quando nós, as pessoas de bem, fazemos isso, deixamos esse mundo entregue ao deleite dos sem caráter, dos espúrios, dos calhordas, desses que o tornam a podridão que aí está.

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