Make your own free website on Tripod.com

A semente da transformação

por Debson Luís

Imagino que muita gente pensa o quão inútil é emitir uma opinião, sobretudo quando se trata de questões aparentemente longínquas, totalmente fora de nossa esfera de controle, especialmente quando o assunto está ligado à política ou ao poder. As pessoas tendem a acreditar que manifestarmos nossa indignação sobre o mal comportamento de nossos políticos, sobre a desmantelada sociedade em que vivemos de nada adianta. Acham que é melhor tocarmos nossa vidinha sem esquentar a cabeça com essas "bobagens". E, muitas vezes, não são de analfabetos políticos, lembrando Brecht, que ouço esse tipo de afirmação. São de pessoas relativamente politizadas, que votam, que têm consciência de sua cidadania, mas não acreditam que as coisas mudem um dia. Escolhem seus candidatos quase sem critério algum. Normalmente votam nos que julgam "roubar menos que os outros". Pessoas que costumam denominarem a si próprias "desiludidas". Mas afinal, que importância tem, de fato, a contestação?

Europa, século XVIII. Época de nobres, reis absolutistas que esbanjavam poder e riqueza de um lado. De outro, camponeses famintos que ainda trabalhavam sob a insígnia da servidão. Em meio aos extremos, firmava-se uma classe que nascera com o renascimento das cidades, do comércio. A burguesia. A esta classe também se impunham limitações. Mesmo que concentrassem alguma riqueza continuavam sem prestígio e sem um dedinho sequer de poder ou influência sobre as decisões políticas. Na França, os burgueses perceberam, a certa altura, que a maneira como estava concentrado o poder, nas mãos de um só homem, não era justa, que era inadequada para o desenvolvimento e para o progresso da sociedade. Começaram a contestar. Num primeiro momento, as pessoas achavam seus discursos infundados. Eram tratados como loucos entre o povo e eram motivo de piada entre os nobres. O tempo foi passando e os burgueses foram ficando cada vez mais veementes em suas preleções contra o sistema vigente. Então, as pessoas, aos poucos, começaram a dar ouvidos ao que lhes era dito. Cada vez mais, mais gente se convencia de que os burgueses estavam com a razão, que tudo aquilo tinha que mudar. Surgiram as primeiras insurreições seguidas da opressão despótica. Mas o povo já houvera sido convencido pela burguesia e a tomada da Bastilha a 14 de julho de 1789 simboliza algo muito além da queda do absolutismo na França. Significa a ruptura total com as estruturas do feudalismo naquele país e, posteriormente, no resto da Europa. E isso, repito, só ocorreu porque houve contestação.

Outro exemplo significativo de contestação que resultou em melhoria está na classe operária que se formou no século XIX, época em que a Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, lançou seus tentáculos sobre a Europa e EUA. Naquele tempo, o corpo operário das fábricas era formado por homens, mulheres e crianças que chegavam a trabalhar dezoito horas diárias. As mulheres e crianças ganhavam quase nada de salário o que os tornava, praticamente, escravos. Os homens ganhavam o suficiente para sua sobrevivência, muito precária por sinal. Então, homens como Saint-Simon, Bakunin, Proudhon e, principalmente, Marx começaram a contestar a relação que se dava entre industriais e operários. O Anarquismo e o Socialismo difundiram-se entre o operariado que aderiu a tais ideais cada vez mais convictos de seus argumentos. Iniciou-se, então, conflitos entre patrões e empregados que resultaram na diminuição da jornada de trabalho, na fixação do salário mínimo e na ilegalidade do trabalho infantil.

Existe, porém, no caso do Brasil, a disseminação cultural, ao longo de nosso processo de formação histórica como nação, da idéia que o brasileiro é calmo, despreocupado, festeiro, que apesar de tanto sofrimento é feliz, que encara as dificuldades do dia-a-dia sempre com bom humor e isso nos tornaria únicos no mundo. Disseminou-se a idéia do "jeitinho brasileiro" e daí provem essa nossa passividade generalizada. Claro que generalizar é perigoso e, certamente, há exceções para essa regra. Tivemos também nossos momentos de contestação que se efetivaram em mudanças, talvez não tão significativas como a Revolução Francesa até porque, como já disse, faz parte de nossa formação cultural o tipo pacífico que, obviamente, impediu transformações mais profundas.

Mas a história está abarrotada de processos que se iniciaram a partir da simples contestação e culminaram, muitas vezes, na ruptura absoluta entre estruturas políticas, sociais e econômicas consideradas ultrapassadas com outras e completamente diferentes estruturas e, outras vezes, em transformações não tão profundas, mas talvez na reestruturação da ordem interna de uma determinada sociedade que resultou na melhoria da qualidade de vida das pessoas que a integram. E ainda tem gente que acredita nada adiantar contestar! Bom... tem gente que acredita em duende, né?

Retornar à página anterior