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Enforcar o último rei com as entranhas do último padre

por Gustavo Ioschpe

O ideal, infelizmente, não é meu, mas de Voltaire. É uma boa - e gráfica - síntese dos ideais iluministas estabelecidos pela Revolução Francesa: abaixo a opressão, pela liberdade individual e o racionalismo. Se quase todos associam facilmente a figura do monarca à tirania, a relação entre religião e opressão e irracionalismo já não é tão espontânea. Pois como poderiam aqueles inocentes clérigos, pregadores do amor universal, ser algo que não a encarnação do que há de melhor nesse mundo?

Há que se evitar a armadilha de atomizar um movimento coletivo. Que padres e rabinos e imãs estejam movidos pelas mais puras intenções eu não duvido, mas essa constatação não obscurece a percepção de que as religiões organizadas têm tido efeitos nocivos à humanidade.

O homem vem se confrontando com a certeza da morte e a angústia pela brevidade da vida desde os seus primórdios, e sempre buscou, ante a fugacidade de sua existência, o repouso n'algo perene e, de preferência, eterno. E achou nessa eternidade também a solução para outra de suas aflições, a imprevisibilidade e injustiça da vida. A essa figura infinita as religiões deram o nome de Deus: não só eterno, um rochedo na fluidez da existência humana, mas onipotente, onipresente e bondoso, capaz de restaurar um senso de justiça e equanimidade às nossas vidas. Pois os crentes sabem que, se não forem recompensados por seus esforços nessa encarnação, serão em outra, ou durante sua passagem pelo éter ou o reino dos céus.

As religiões montaram um excelente teatro que proporciona ao converso o abrigo de uma paisagem reconfortante no meio de uma selva. O crente não precisa encarar alguma s duras verdades que poderiam fazer sua passagem por esse mundo menos palatável: que nascemos de um espermatozóide e um óvulo e que, quando morremos, somos mesmo enterrados sete palmos abaixo da terra, onde nossos elevados pensamentos, sentimentos e emoções serão impiedosa e implacavelmente devorados por vermes, e aí será o fim, kaput. E que, nesse intervalo entre o útero materno e o berço verminoso, passaremos por uma existência norteada pela injustiça e pelo acaso, onde muito freqüentemente os mais desonestos, sórdidos e ímpios serão felizes e os corretos, esforçados e íntegros colherão apenas amarguras e desilusões; um mundo onde o futuro Nobel da Paz pode morrer num acidente de carro, onde um avião pode cair na sua cabeça, uma mulher que você ama pode lhe passar uma doença fatal e onde seu filho pode nascer com esclerose múltipla degenerativa e não há nada que você tenha feito pra merecer isso ou possa fazer para remediar a situação.

Se por um lado o bálsamo proporcionado pela religião torna a vida mais suportável, por outro impossibilita - ou pelo menos dificulta - a mudança real do predicado coletivo. Pois quem está seguro de sua cadeira cativa na felicidade eterna não irá se preocupar com mesquinharias da existência terrena como reforma tributária, política monetária, etc. A religião formal é apenas um meio de controle social, uma polícia das almas. E tão brilhante a ponto de garantir a felicidade através da ignorância, da alienação, da supressão de curiosidades perigosas.

O ato de penetrar em um templo e entregar-se à fé representa um abandono, o abandono da insegurança pela aceitação de leis supostamente eternas e superiores, da racionalidade pelo dogma. A relação de um templo para com a espiritualidade humana - que não deixa de ser um direito, mesmo que conflitante com o racionalismo - é a mesma de um restaurante fast food para a descoberta da culinária. O resultado final pode até ser o mesmo, mas o que liberta é justamente o processo. A adoção de mesquitas, sinagogas e igrejas é o refúgio de uma patologia. Assim como o hospício acolhe o louco que vive em outro mundo, o templo acolhe o fiel desejoso de reproduzir na terra a placidez do reino dos céus. A única diferença entre eles é que o doente mental é internado pelos outros, que o consideram um estorvo e um perigo, e o crente entrega-se sozinho, por considerar o mundo à sua volta um estorvo e um perigo. A sorte desse é encontrar uma classe unida e plugada na mesma cosmovisão, enquanto que o freqüentador do hospício precisa resignar-se à desunião da classe onde um se acha Napoleão, outro Calígula, outro Átila...

Fonte:

Folha On-line

www.uol.com.br/folha/pensata/ult509u24.shtml

 

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