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Coração satânico

por Debson Luís

Fiquei curioso a respeito de algo, no mínimo, exótico, mas que desperta na grande maioria das pessoas medo e, até mesmo, revolta. Andei visitando alguns sites de satanismo. E enquanto tentava compreender como e em que se embasava tal manifestação, não sei se filosófica ou religiosa, não sou especialista nesses assuntos, me perguntava: o que estava eu a procurar ali? Teimava em me responder que era apenas curiosidade, mas à medida que eu lia as leis do "culto a Satã" descobri algo estarrecedor. Percebi que todos, salvo raríssimas exceções, é claro, não passamos de um bando de cristãos de araque.

Não posso falar por outras religiões como o judaísmo, o islamismo, o budismo ou o bramanismo porque, primeiro, desconheço seus preceitos morais, seus dogmas, portanto não sei se a reflexão que fiz caberia às mesmas; segundo, não conheço pessoalmente um cidadão, sequer, de qualquer uma dessas religiões, o que significa que não tenho base alguma para estabelecer qualquer paralelo que seja. Em outras palavras, minhas conclusões dizem respeito somente ao que conheço de perto, até porque sou parte integrante do cristianismo, como a maioria absoluta de nós, brasileiros. Independente de igreja, se católica, cristã do Brasil, presbiteriana, adventista do sétimo dia, universal do reino de Deus etc., em última análise, todas são fundamentadas no cristianismo. Então vamos às minhas observações.

No mundo decadente em que vivemos, nessa sociedade cuja máxima é o consumismo, está se tornando cada vez mais difícil acreditarmos nas pessoas. Estamos nos tornando incapazes de "amar ao próximo como a nós mesmos". Em vez disso, cresce, em função da competitividade, a necessidade de buscarmos mais auto-estima, mais confiança em nós mesmos, pois, se queremos vencer na vida, é fundamental que nutramos o amor próprio. Curiosamente, o primeiro mandamento do satanismo é amar a si acima de todas as coisas, diferentemente do primeiro mandamento bíblico amar a Deus acima de todas as coisas. Até aí, nada de tão impressionante. Concordo que, se quisermos ajudar a resolver os problemas que afligem a humanidade, devemos antes resolver nossos próprios problemas, embora o comparativo denuncie também a sobrevalorização do individual sobre o coletivo. Um pouco de auto-estima é saudável. Mas o que acontece é que a vaidade fica, geralmente, em primeiro plano. Só pensamos em resolver nossos problemas materiais, enquanto deixamos de lado os de nossos semelhantes e, mais especificamente, nossos problemas de relacionamento ou afetivos. Estamos cada vez mais pensando somente em nós mesmos, mais na aparência que na saúde de nosso corpo, no conforto material que poderíamos e desejamos usufruir e menos nas pessoas. O que aconteceu com a multiplicação dos pães?

Na ascendência do "pensando somente em nós mesmos", identifiquei o que creio ser o que mais nos caracteriza como mais satânicos e menos cristãos. Cabe aqui uma pergunta diretamente para o leitor: você, caro(a) leitor(a), costuma desejar o bem a quem você ama? Aposto que a resposta é sim. Naturalmente, sempre desejamos o melhor para aqueles que amamos. Cabe, agora, outra pergunta: e os que você odeia? Hipocritamente, muitas pessoas responderiam esta questão dizendo que desejam, da mesma forma, o bem até mesmo para seus inimigos. Mas quem não sente uma pontinha de prazer em ver aquele sujeito que odeia se ferrar? Isso é normal, naturalmente satânico, pois um dos mandamentos mais importantes do satanismo prega justamente isso: que devemos nos sacrificar pelos que amamos, desejar-lhes somente o que há de melhor, e destruir nossos inimigos. Cristo ofereceu a outra face após ter levado o primeiro tapa. Nós sempre o revidamos com um soco.

Em síntese, o satanismo prega que devemos tirar o melhor proveito possível da vida terrena, dos prazeres carnais, mas, antes de tudo, amarmos a nós mesmos acima de qualquer outra coisa. Devemos nos valorizar. Na prática, é isto o que nós buscamos no dia-a-dia, ou seja, no fundo somos todos satânicos, ressalvando, mais uma vez, raras exceções. Se você não concorda comigo, reflita com atenção sobre si mesmo(a), veja como lida com seus sentimentos e você terá a resposta. Daí, manter-se assim, tão satânico, será sua opção, a opção de cada um de nós. Lembra do livre-arbítrio? Cuidado com o egoísmo.

Para concluir, quero citar um pensamento anunciado pelo próprio diabo, personagem interpretado por Robert De Niro no filme Coração Satânico, cujo título inspirou o deste artigo: "Há religiões o bastante no mundo para fazer os homens se odiarem, mas não o suficiente para fazê-los se amarem". Aproveite o momento e reflita sobre isso também.

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