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Campanha a favor do caos

por Debson Luís

A crise das polícias civil e militar brasileiras tem me preocupado muito. Ainda mais numa conjuntura de crescente violência por conta, da também crescente, crise econômica pela qual, não só o Brasil, mas a maior parte do planeta passa atualmente.

Mas mais preocupante que as greves policiais que se espalham país afora como uma reação em cadeia, é a postura da mídia e do governo em relação a essa situação dramática.

A do governo é, como tem sido nos últimos anos em se tratando de questões sociais, de uma comodidade implacável. Há muito tempo que vem se falando que a polícia brasileira é mau preparada, mau equipada, trabalha em péssimas condições por salários ridículos e o governo, responsável pela manutenção da segurança da sociedade civil, o que tem feito? Nada. Ou melhor, quase nada. Serei gentil e considerarei como "algo feito" aquele pacote contra a violência que, praticamente, nunca saiu do papel, lembra? Pois é, se alguma daquelas medidas foi tomada, foi de maneira muito tímida, porque, até agora, as estatísticas dizem que não. Ah! Tem gente que não acredita em estatísticas. Que tal, então, a sigla PCC? Isso diz algo? Diz, sim. Diz que o crime organizado ganhou mais mobilidade a ponto de se aparelhar quase como uma instituição e dentro dos presídios! O que houve com a segurança pública? Tudo indica que ficou à mercê da própria sorte.

Agora, a da mídia é extremamente preocupante. Outro dia, no Fantástico, vi uma reportagem sobre a dita crise. Essa reportagem começou mostrando a face cruel da polícia: espancamento de inocentes, conluio com o tráfico de drogas, contrabando e venda ilegal de armas, essas coisas que estamos cansados de saber e de ver por aí. À certa altura, falou-se sobre baixos salários e condições precárias de trabalho, mas de forma muito superficial. Para completar o quadro deprimente, o programa coloca no ar uma entrevista com traficantes que revelaram às câmeras o funcionamento do esquema entre si e a polícia. Outro dia, no Jornal da Band, foi mostrada também uma breve reportagem sobre dois policiais cariocas que não aderiram à greve fluminense como "bons exemplos de cidadania", por terem permanecido trabalhando.

Claro que não pretendo defender aqui a idéia de que as denúncias feitas pelo Fantástico são imorais ou absurdas e fantasiosas. Nossa polícia não é santa e os policiais que flertam com a criminalidade têm de ser punidos. A questão que cabe aqui, na verdade, é: por que justamente no momento em que ocorrem as paralisações das polícias no país a mídia transborda denúncias sobre as mesmas?

Ao meu ver, em vez de contribuir com a resolução da crise a mídia está, na verdade, promovendo uma terrível campanha a favor do caos. Pois se a polícia anda de mãos dadas com a criminalidade não será por falta de opção? Como será um trabalho em que se coloca a própria vida em risco por um salário médio de 400 reais com uma família e uma casa para sustentar? Se você estivesse nessa condição, aceitaria ou não a propina do traficante, ainda mais sabendo que a outra opção é um paletó de madeira? Imagine você com um revólver, calibre 38, pouca munição, subindo um morro comandado por traficantes que usam submetralhadoras AR-15 automáticas e fuzis M-16?

Assim, acompanhe meu raciocínio: a polícia resolve reivindicar melhores salários e condições de trabalho; o governo enrola e usa a lei de responsabilidade fiscal como desculpa; a solução, a priori, é a greve; aí vem a mídia disparando denúncias de toda ordem contra a polícia; logo a opinião pública fica contra a polícia; a pressão da opinião pública, somada à pressão do governo, faz a polícia aceitar uma proposta ridícula de reajuste salarial e volta à ativa, continua a mesma merda de sempre e todos vivemos infelizes para sempre.

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