Make your own free website on Tripod.com

A única absoluta verdade

por Lucius Fernandes

Neste sítio, intitulado Manifesto Navegante, há um local onde é explicado ao visitante o que ele deve fazer para se transformar em um colaborador, alguém que se dispõe voluntariamente a escrever e enviar para cá seu texto a fim de publicá-lo na Internet, às vistas do mundo inteiro.

Isso é excelente. É ótimo que exista esse tipo de manifestação, é maravilhosa a existência de um espaço assim, que nos permite, a todos, expormos nossas opiniões ou, até mais que isso, nossa visão, nossa interpretação da realidade; uma interpretação, inclusive, extremamente subjetiva, que se construiu ao longo de nossas vidas de acordo com nossas experiências pessoais sob a influência do meio em que vivemos, sob a influência da cultura e dos valores nos quais estamos imersos. E, dessa forma, construímos também nossos próprios valores dentre os quais se encontra a verdade.

Claro que nem todos esses valores são produzidos. Muitos deles são reproduzidos, ou seja, são valores produzidos por agentes externos e que nos foram imputados por meios diversos. Não os produzimos, os absorvemos e os reproduzimos de maneira que são constituídos padrões de comportamento. Mas não será este o foco central desta discussão, o que está em pauta é a verdade. E ela aparece numa parte deste Manifesto chamada "mais informações". Está escrito aí: "Estas exigências são necessárias na medida em que há seriedade e um veemente compromisso com a verdade por parte de nossa equipe e de nossos colaboradores".

Veemente compromisso com a verdade

Partindo do princípio de que a verdade é um valor subjetivo, construído ao longo de uma vida e influenciado por outros valores externos e pelo meio cultural no qual cada indivíduo está inserido (a verdade como valor produzido), ou do princípio de que a verdade, como valor, foi absorvida, e não construída, pelo indivíduo (a verdade como valor reproduzido) conviria, talvez, a pergunta: há compromisso com qual verdade?

Óbvio que há uma diferença bastante significativa entre uma e outra verdade. Cultivar em nosso espírito o propósito da solidariedade, de que devemos estender a mão e ajudar aos mais necessitados, por exemplo, para a grande maioria de nós, é uma verdade incontestável. Essa mesma verdade pode ser, ao mesmo tempo, num e noutro indivíduo, produzida e reproduzida.

No caso da reprodução, o indivíduo absorveu essa verdade do meio. Desde pequeno, a idéia de solidariedade lhe foi posta freqüentemente de diversas maneiras: pela família, pela escola, pelos amigos do bairro, pela televisão e, principalmente, pela religião, mais especificamente, o cristianismo. Estes, como agentes externos, o impuseram este valor, esta verdade de forma que ele a tem como própria, como se ele a tivesse construído. Claro que, mesmo neste caso, o processo é também construtivo, contudo o indivíduo constrói sua verdade com um material que lhe é dado, seguindo a planta dos tais agentes externos.

No outro caso, em que o sujeito tem a necessidade da solidariedade também como uma verdade, o processo se deu de maneira diversa. Ao longo de sua vida, ele observou que existem pessoas em condições materiais de existência extremamente precárias e que há uma dinâmica social que pode levá-lo às mesmas condições. Ao se projetar àquela dramática condição, sentiu que deveria fazer algo para ajudar, mas não porque aquilo seria bom aos olhos de Deus, e sim porque ele concluiu que se deve fazer pelos outros aquilo que gostaríamos que fizessem por nós. Sua verdade foi construída a partir de suas próprias observações, ou seja, ninguém lhe forneceu material ou planta, ele mesmo produziu os valores necessários para a construção da própria verdade.

Mesmo sendo duas verdades construídas de maneira diferente, ambas convergem para a mesma finalidade: a solidariedade. Isto quer dizer que não existe a verdade absoluta, que cada um traz consigo a própria verdade.

Mas nem sempre as verdades convergem. Muitas vezes elas divergem e, quando isso ocorre, um choque entre elas pode ter conseqüências catastróficas. E, geralmente, estas verdades extrapolam os limites do indivíduo e se organizam em grupos, em instituições e, até mesmo, em Estados. Só que esta é uma discussão para uma outra ocasião.

Para concluir, uma simples brincadeira que comprova de maneira muito eficiente a inexistência da verdade absoluta:

Imagine um como americano duplo com água até a metade. Pergunta-se: o copo está meio cheio ou meio vazio?

Algumas pessoas responderão que o copo está meio cheio, outras, meio vazio. E quem estaria com a razão de fato? Afinal, quem seria o dono da verdade?

Retornar à página anterior