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Grãos de areia e colibris

por Lucius Fernandes

Uma vez me disseram que nada podemos fazer diante das forças que emanam disso que eles chamam "poder" e que regem nossas vidas. Disseram que jamais conseguiremos mudar uma palha, que seja, do lugar porque somos insignificantes. Então me disseram que sou como um grão de areia em meio ao deserto, que qualquer tentativa minha de reação seria tão nula quanto o efeito de uma gotícula d'água que fosse lançada contra a labareda abissal.

Às vezes, chego quase a acreditar que isso seja verdade. Às vezes, sinto que sou mesmo insignificante diante dessas forças, que nada posso fazer a não ser me conformar e aceitar que não sou mais que isso, um de grão de areia.

Mas sempre que me sinto assim, tão impotente, quase ao ponto de me entregar, de desistir de tudo, me lembro de uma singela estória que fala sobre um pequeno colibri que tentou salvar seu lar de uma grande tragédia.

Conta-se que, certa vez, numa grande floresta, houve um terrível incêndio. Ninguém sabe, ao certo, como começou, nem por que, mas, quando os animais perceberam, já era tarde demais. O fogo, com a ajuda do vento, devorou tudo o que encontrou pela frente com tamanha voracidade que não tardou muito para floresta ficar totalmente tomada pelas chamas. Os animais, então, desesperados, fugiram para se salvarem. O tumulto era geral. Muitos morreram, perderam-se de seus filhotes e, o mais triste, era que estavam a perderem o seu precioso lar, o que, de certa forma, equivalia à perda de suas próprias vidas. A única alternativa só poderia ser a fuga. Foi quando, em meio à confusão, uma raposa notou uma coisa que até a fez parar. Ela observou um colibri que passava por ela o tempo todo. Ia e vinha, vinha e ia. Observou-o por alguns minutos, até que não conseguiu mais se conter de curiosidade e decidiu perguntar ao pequeno pássaro que tanto ele ia e vinha, entrava e saía da floresta, inclusive pondo em risco a própria vida. E ele, afoito, lhe explicou que ia até o rio, enchia seu bico com água e retornava à floresta para tentar apagar o fogo. A raposa admirou a coragem da avezinha, mas não hesitou em zombar do passarinho lhe dizendo que, apesar de corajoso, era idiota, pois nunca conseguiria apagar o incêndio sozinho. E ele replicou: "Você tem razão, cara amiga. Eu, sozinho, talvez nunca consiga vencer o fogo, mas com a ajuda de todos vocês, que amam este lugar tanto quanto eu, talvez seja, sim, possível detê-lo e, assim, salvarmos o nosso lar".

Como o colibri, que amava a floresta, porque era sua casa, que mesmo só e desacreditado não se conformou com aquele caos e, mesmo sabendo que sua atitude não bastaria para salvá-la, assim sou eu: alguém que ama seu lar e que tenta, à sua maneira, salvá-lo da destruição. E às raposas que tentam me convencer a aceitar a realidade como está, a me conformar com esse terrível e "imutável" fato, quero apenas dizer isto:

Eu não sou um grão de areia, porque grãos de areia não têm vida, são inertes e vão para onde o vento os leva. Eu sou o colibri que tenta apagar o incêndio da floresta. Minha atitude jamais poderá causar, sequer, o mínimo efeito, mas estou fazendo a minha parte.

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