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Overdose de euforia

por Debson Luís

"Parabéns, meu caro, pela maravilhosa conquista de seu país, o pentacampeonato mundial de futebol", cumprimentou-me um amigo pelo telefone durante aquela apoteótica tarde de comemoração. Assim repliquei: "Quem merece ser parabenizado não sou eu, ou você, mas aqueles jogadores. Eles, sim, são campeões; nós, meros espectadores". Inacreditável essa relação de identificação do brasileiro com o futebol ao ponto de nos projetarmos na seleção, como se fôssemos, nós mesmos, aqueles jogadores; como se nós tivéssemos marcado aqueles dois gols contra a seleção alemã, na final da copa, e não Ronaldo. Tanta devoção é, sinceramente, assustadora.

O que espanta é o que repercute da conquista de um título tão importante: a euforia. Num país tão marcado por contrastes terríveis, como o Brasil, naturalmente esses momentos desembocam no alívio das dolorosas tensões decorrentes da tão dura realidade cotidiana. O arrebatamento toma conta das pessoas. De repente, sapos se transformam em príncipes, abóboras em carruagens, gatas borralheiras em Cinderelas. Num instante, passamos do mundo real para um outro mundo totalmente lúdico, onde tudo que se pode sentir é, não mais que, êxtase em sua máxima plenitude. Cessam-se todas as dores, todo sofrimento. O que era heterogêneo torna-se, subitamente, homogêneo. Parece que tudo, enfim, pode dar certo. E dá, pelo menos enquanto dura a ilusão.

Ilusões são etéreas e se dissipam muito facilmente no ar. Logo a carruagem volta ser abóbora e o que mudou? Nada. Restou somente a lembrança do êxtase, daquele momento de extrema felicidade que uma vida inteira não seria capaz de produzir. Então, cessa-se o efeito anestésico e cá estamos nós, tendo que suportar novamente as dores sintomáticas de um decadente mundo real que tudo que nos pode oferecer, além de sofrimento, são entorpecentes, como este, para que sigamos, aliviados, à derrocada disto que chamam "civilização".

Todos os dias, na verdade, recebemos pequenas doses desses alucinógenos. Mas o que poderia acontecer se, ao invés de drogas que entorpecem, nos aplicassem estimulantes? Se, ao invés de "esperanças", "clones", "big brothers", "casas de artistas", "ratinhos", "gugus", "faustões" e outras tantas bobagens, nos dessem informação, educação ou, pelo menos, algum entretenimento com alguma qualidade? Por que alguém iria querer que as coisas não fossem diferentes? Talvez porque tal "alguém" se beneficia, de alguma maneira, de tudo isso?

De qualquer forma, parece que essas pequenas doses diárias tendem a não provocar o efeito necessário, então nos aplicam uma overdose de euforia para que, entorpecidos ao extremo, continuemos assim, como estamos: satisfeitos em, além de pentacampeões de futebol, sermos campeões da fome, da desnutrição, do desemprego, da miséria, do preconceito, da violência. Tivemos que acordar para ver o penta. Que tal acordarmos para mudar a realidade?

Evidentemente esta não é a mais simples das tarefas. Muito pelo contrário, transformar uma realidade em outra é um processo extremamente complexo e ardiloso. Não há qualquer receita mágica capaz de fazê-la da noite para o dia, mas existem pequenas ações que, acumuladas no decorrer tempo, podem ativar esse processo. Para tanto, a educação é fundamental. E educar é mais que ensinar a ler e escrever, é ensinar a compreender o mundo, a começar pela compreensão de si mesmo como criatura que pensa. Interpretar a realidade, assimilá-la, agir sobre ela e transformá-la: este é o caminho.

É necessário, por conseguinte, a utilização da mais importante ferramenta para a construção de um mundo novo: a informação, que deveria ser distribuída, divulgada com a mesma voracidade que se divulga um evento como a copa do mundo ou o futebol em si. Não transformaram o jogo inglês na maior das paixões nacionais? Que tal, agora, fazermos da cidadania sentimento mais avassalador que o amor pela bola?

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