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Liberdade, mesmo que tardia

por Debson Luís

O dia 13 de maio deveria ser, desde muito tempo, um dia muito especial, um dia em que comemoraríamos, de verdade, a libertação das amarras da escravidão brasileira. Deveria ser o dia em que todas as televisões exaltariam a cultura que, dentre outras tantas, ajudou a construir, de forma sublime, nossa identidade nacional. Mais que exaltar: reafirmar o importantíssimo papel do negro na construção de tudo aquilo que é belo e que faz deste país um gigante pronto para o despertar de uma nova era. Infelizmente, há, no seio deste mesmo colosso, um lado sombrio e cruel que ainda nos acorrenta ao atraso, ao descaso, à miséria. Os homens que, com seu suor, produziram infindas riquezas e provaram, mesmo sob os açoites da ignorância, que podemos ir muito além daquilo que os mais otimistas vislumbram e que os mais pessimistas desdenham, esses homens dos quais herdamos aquela força inexplicável de transformarmos a dor em riso, essa resistência da qual nos orgulhamos tanto, que faz de nós um povo ímpar, esses homens continuam escravizados, menosprezados, pisados por aqueles que são os responsáveis pelos grilhões que nos prendem ao subdesenvolvimento.

Os imbecis que detêm o controle de nossas vidas, que idealizam e põem em prática seus projetos medíocres, egocêntricos e que visam, tão somente, o próprio interesse, são esses cretinos que empurram os negros à margem de uma sociedade cada vez mais consumista que terminará por consumir a si própria com seus devaneios materiais e suas futilidades existenciais. O racismo embutido em nossa cultura também é responsabilidade dessa gente que, como nossas vidas, controlam também a grande mídia. E o que foi ou está sendo feito para mudar isso? Quase nada. Com o poder, a influência que os grandes meios de comunicação têm sobre opinião pública em pouco tempo extirparíamos o racismo ou, ao menos, o reduziríamos ao ponto de torná-lo imperceptível, inofensivo. No entanto, muito pouco se vê, especialmente pela TV, alguma discussão a esse respeito. Talvez seja pelo fato de que o assunto não geraria uma audiência que garantisse bons lucros por meio da publicidade, mas o que deve mesmo ocorrer é o medo da conscientização em massa. Já imaginou 45% da população brasileira consciente da importância de seu papel, buscando uma efetiva melhoria de sua qualidade de vida, cobrando, participando, enfim, lutando num embate frontal contra os calhordas? A população negra brasileira, se quiser, pode eleger sozinha o presidente da república. Não o fez ainda porque é mantida em condição de pobreza, não só material, mas, principalmente, intelectual, o que, aliás, é automático: se mal são remunerados para se alimentarem, o que sobra para estudarem? A questão, inclusive, não é somente financeira, pois quem preenche as piores vagas do mercado e que são as mais intolerantes e insuportáveis são os negros, que não podem exigir de seus patrões a tolerância necessária para dedicarem parte de seu dia estudando, já que correm o risco de serem demitidos "e tá assim de neguinho desesperado pra tomar esse lugar". O tempo não permite.

É assim que os negros são mantidos ainda num regime de escravidão. Os que não aceitam essas condições buscam liberdade na criminalidade, passam a pertencer a um submundo afastado daquela dura realidade, mas aí se tornam escravos da clandestinidade, do medo, da violência e caem nas mãos daquela que os afugentaram para a marginalidade: a intolerância. Transformam-se em animais para serem caçados pela polícia ou por grupos de extermínio ou por rivais que disputam o controle deste subpoder. É importante ressaltar que o submundo do crime não é um "privilégio" apenas de negros marginalizados; pessoas de todas as raças e de todos os credos disputam, palmo a palmo, um espaço nesse mundo marginal. Mas há um diferencial que faz do negro o destaque, por assim dizer, desta subsociedade delinqüente e que reside totalmente no fato da sociedade brasileira ser, apesar de bastante sutil, profundamente racista. Não podemos mais suportar isto! Temos que fazer algo já, pois a guerra começou e muitos homens de bem estão sendo sacrificados a cada hora. Em vez de nos preocuparmos com palestinos e israelenses devemos nos preocupar com nós mesmos. Precisamos romper definitivamente as correntes que nos atam à decadência moral e institucional para alcançarmos, efetivamente, a liberdade de nosso povo, mesmo que tardiamente.

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