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O que ainda pode nos ensinar a independência dos EUA?

por Debson Luís

Data é algo que exerce certo fascínio sobre mim. Se não me falha a memória, esta é a quarta vez que desenvolvo um tema tendo, como ponto de partida, uma data específica, desde que colaboro com o Manifesto Navegante. Isso poderia denunciar, aos desavisados, uma formação positivista, o que não deixaria de ser verdade se levássemos em conta minha formação escolar nos, então, primeiro e segundo graus, agora ensinos fundamental e médio, conforme a LDB 9394 de 1996, quando tive professores de história, especialmente, com formação superior extremamente influenciada por essa escola, conforme a orientação dos militares que comandavam o país no período da ditadura, entre 64 e 84. Os positivistas não conseguem estabelecer uma relação de causa e efeito entre os fatos históricos. Estes, segundo aqueles, devem ser analisados fria e isoladamente. Ou seja, compreende-se o fato pelo fato em si. Daí a importância da data, já que os fatos ocorrem num determinado tempo histórico delimitado por elas.

Em minha formação acadêmica (licenciatura plena em história), aprendi que as datas são importantes, mas apenas como pontos de referência no desenvolvimento do tempo histórico e não como marcadores que estabelecem limites, como se, em 1453, o feudalismo tivesse se extinguido para sempre da face da Terra e, de imediato, iniciou-se o período mercantilista e das grandes navegações; ou como se, a 14 de julho de 1789, a tomada da Bastilha, durante a Revolução Francesa, tivesse posto fim absoluto às absolutistas monarquias de toda a Europa.

De qualquer forma, uma data ligada a um fato histórico pode servir como ícone e nos levar a fazer uma reflexão sobre si, considerando, evidentemente, a relação causa-efeito e, até mesmo, ir além disso. E, no tempo em que vivemos, talvez uma das datas mais carregadas de simbolismo seja o 4 de julho, dia do aniversário de independência dos Estados Unidos, país hegemônico militar, política e economicamente em nível global. Mas o que este fato tem a nos dizer pouco mais de dois séculos depois?

Primeiro, precisamos nos posicionar nos tempos presentes, tempos da globalização do capitalismo, evento encabeçado pelos Estados Unidos, sob a orientação de uma doutrina político-econômica conhecida por neo-liberalismo. O que prega esta doutrina? Em duas palavras: livre comércio. Livre comércio implica, basicamente, em quebra de barreiras e tarifas alfandegárias, o que facilitaria a importação e exportação de mercadorias e matérias-primas em todos os países. É necessário, portanto, combater eventuais protecionismos praticados por países que visam proteger sua produção da competição que poderia arruinar sua indústria. Segundo os devotos desta doutrina, isto estimularia o crescimento industrial dos países subdesenvolvidos, dentro de relações claras para uma competição justa. Tal proposta me parece convincente e conveniente. Mas todos sabemos que, no capitalismo, para um ganhar outro tem de perder. O que ocorre é que os países desenvolvidos, em especial os Estados Unidos, têm se utilizado daquela velha máxima do "faça o que digo, não faça o que faço" para protegerem seus interesses enquanto nós, do mundo subdesenvolvido, seguimos à risca a cartilha neo-liberal escancarando nosso mercado para seus produtos de ponta em alta tecnologia. Ora, que competição justa é essa? É assim que chegaremos ao status de país desenvolvido? Creio que não.

Quando, a 4 de julho de 1776, nasciam os Estados Unidos da América, seus líderes, durante o processo de independência, insuflaram nos colonos o que eles chamaram "espírito de liberdade". Este espírito veio, na verdade, de grandes teóricos do liberalismo, como Adam Smith, do iluminismo, como Voltaire, e serviu de guia para a formação política, econômica e, até mesmo, cultural dos Estados Unidos. Realmente, àquela época, o liberalismo impregnou-se de tal sorte na alma da nova nação que a fez nascer já uma democracia pautada no respeito aos interesses individuais. "Todos são iguais perante a lei". Sua constituição serviu de modelo para outros países, inclusive o Brasil. Eis, portanto, a resposta para a pergunta do título deste artigo: a independência dos Estados Unidos teve, como vetores fundamentais, a busca pela liberdade e a igualdade de direitos entre todos. Ainda hoje, eles se utilizam dessas premissas e as pregam pelos quatro cantos do planeta, muito embora a prática nos revela atitudes que batem de frente com este discurso.

A liberdade hoje pregada pelos Estados Unidos tem sentido unilateral, ou seja, enquanto eles praticam descaradamente uma política protecionista, nós aderimos, sem a menor preocupação, à política do livre comércio. Enquanto os produtos deles, e dos demais países desenvolvidos, inundam nosso mercado livres de altas tarifas, nossos produtos são impedidos de circular a preços competitivos em seus mercados em função das elevadas taxas que jogam o valor do que lhes exportamos às estrelas. Agora, se temos que jogar este jogo, que a regra valha para todos. Deus queira que o 4 de julho reaviva o ideal de liberdade e igualdade de oportunidades, em sua mais profunda e literal essência, na cabeça dura dos dirigentes norte-americanos para que possamos também desfrutar um pouco das benesses do desenvolvimento. Será que é tão difícil assim dividir o pão?

Enquanto isso não acontece, cantemos: "pros países pobres? Nada! E pros Estados Unidos? Tudo! Então é pique, é pique, é pique, é pique, é pique! Então é hora, é hora, é hora, é hora, é hora... de... tomar... no... *! USA! USA! USA! USA! USA! ..."

Congratulations, Uncle Sam!

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