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Quem são os desinteressados?

por Debson Luís

Muitas pessoas atribuem ao desemprego e à miséria o desinteresse dos mais pobres, que muito pouco fariam para de se libertarem das más condições em que vivem. Outras defendem que tais questões têm implicações mais complexas e que estariam ligadas ao descaso dos governos, que deveriam adotar políticas mais sérias para as combater. E qual destas seria a tese mais correta? Ou, melhor, qual delas corresponderia ou, pelo menos, mais se aproximaria da realidade?

Apesar da aparente incompatibilidade existente, a resposta mais prudente para tal questionamento seria: ambas. Primeiro, porque, de fato, nossos governantes deixam de cumprir suas obrigações relativas às chamadas políticas desenvolvimentistas, as quais teriam como principais conseqüências: a geração de empregos e, por conseguinte, a inclusão social. Por outro lado, negar a existência do desinteresse seria absurdo, pois ele existe, sim, mas não exatamente como os defensores mais veementes desta tese crêem.

Por que há o desinteresse? O argumento que apresentam para elucidar esta questão relaciona a despreocupação das pessoas mais pobres na busca da melhoria de sua condição material de existência ao assistencialismo promovido pelo Estado, no qual é oferecida uma série de benefícios que estimulariam o indivíduo ao comodismo, ou seja, se a renda do sujeito permanece abaixo de determinado limite, ele ganha do Estado: casa (via projetos habitacionais), comida (através de bolsas de alimentação, cestas básicas e programas de nutrição), auxílio financeiro (bolsa escola, por exemplo), além de terem acesso à água e energia elétrica gratuitamente. Em muitos casos, os beneficiários do Estado não trabalham. Isso ocorre porque, se a pessoa arrumar um emprego que lhe garanta uma renda mínima tornando-a capaz de se sustentar, automaticamente lhe serão cortados tais benefícios. Mesmo a casa estando mais para barraco, a comida sendo de má qualidade e os auxílios financeiros sendo escassos, o cidadão acomoda-se nessas tristes circunstâncias. Para que trabalhar se tudo o que se precisa para sobreviver o Estado dá? Seria esta a filosofia que norteia essa gente. E parece ocorrer exatamente isso, pelo menos com as pessoas que vivem em condições de receberem tais subsídios.

Agora, essa argumentação nos incita a um debate instigante por se fazer necessária uma análise cuidadosa de toda a estrutura que está por trás do fato apresentado no intuito de elucidarmos, com mais precisão e responsabilidade, as forças motrizes dos mecanismos políticos, sociais e, por que não, culturais que resultam nesse trágico modelo. Antes, porém, também é necessário ilustrar que alguns dos defensores da tese acima apresentam como culpados pela pobreza as pessoas que vivem nessa condição, ou seja, os pobres são responsabilizados pelo próprio desinteresse.

Ocorre com essa tese um grave equívoco, na verdade uma irresponsável distorção. Ora, se o sujeito se acomoda em função do assistencialismo promovido pelo Estado, é ele mesmo culpado pelo próprio desinteresse? A resposta para esta pergunta já desvenda, por si só, toda contradição embutida na visão daqueles que querem se livrar da culpa pela miséria humana a jogando nas costas dos próprios miseráveis que são, sim, desinteressados, mas porque a sociedade como um todo, e não só o Estado, geraram um sistema vicioso que induz o indivíduo ao comodismo pleno. Más condições materiais de existência estão intrinsecamente ligadas a uma mentalidade estreita cuja inteligência só pode se manifestar por meio da esperteza ou da malandragem as quais muitos dentre os beneficiários do assistencialismo praticam e que, por isso, são acusados de possuírem discernimento suficiente para produzir em si a consciência de que vivem em circunstâncias carentes porque querem. Mas querem porque estão viciados neste sistema paternalista que gerou esses valores culturais e que foram plenamente absorvidos por cada um desses indivíduos.

Mas não é apenas isso. Outra bobagem que decorre dessa idéia é a visão generalizante sobre as pessoas mais pobres. Temos o terrível hábito de transformar em regra a exceção e, neste caso, colocamos no mesmo rol dos "acomodados" muitos e muitos trabalhadores que não conseguem enxergar além de sua dura realidade pela falta de acesso a uma educação de qualidade e, assim, terminam por aceitar esse destino, já que "essa é a vontade de Deus". E tamanha estupidez acontece porque as pessoas donas desta visão nunca saíram de seus gabinetes, refrigerados por caros aparelhos de ar-condicionado, para dar um passeio pelos bairros mais pobres de qualquer cidade deste país e conversar com as pessoas, conhecer seus anseios, saber sobre suas vidas e sua visão de mundo. Mas se isso realmente acontecesse, sua regra voltaria ao devido lugar de exceção e elas perceberiam que os maiores desinteressados são elas mesmas, que tudo o que fazem é projetar nos outros a culpa por aquilo que também é de sua responsabilidade e que, por comodismo, não admitem.

"É mais fácil maldizer dos homens que instruí-los e melhorá-los"

Provérbio judaico

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