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Ascensão e queda: a sina de todo império

por Debson Luís

Karl Marx dizia que a História é cíclica, o que explica o fenômeno de certos fatos se assemelharem a outros já passados. Observemos, por exemplo, os tempos atuais e comparemos a hegemonia global norte-americana com as grandes civilizações da antigüidade, em especial, a civilização romana.

Roma constituiu-se um poderoso império que ia da Bretanha, passando pela Península Ibérica e Europa central, contornando o mar Mediterrâneo, estendendo seus domínios através da Península dos Bálcãs e ilhas do mar Egeu à chamada Ásia menor (que compreendia a Síria, a Palestina, Israel, a Judéia, a Gália etc.), chegando, finalmente, ao Egito e todo o norte do continente africano. Culturas, povos e raças tão diversificadas foram dominados pelos romanos durante quase mil anos. Uns cediam à dominação e, sem qualquer resistência, acatavam os mandos de Roma; outros eram tomados à força em guerras sangrentas. Derrotados, eram escravizados e tinham suas terras e cidades saqueadas pelas Legiões, os exércitos imperiais. Para os romanos, o mundo não ia muito além de suas fronteiras. Os poucos povos que resistiram ao poderio do Império receberam o rótulo de "bárbaros": gente que vivia em povoados, cuja cultura era tão menosprezada pelos romanos que estes comparavam aqueles a animais, criaturas desprovidas da razão, do intelecto, enfim, considerados incivilizados e incivilizáveis. Os romanos acreditavam que haviam dominado o mundo. E, de fato, considerando as circunstâncias históricas, isso não deixa de ser, ao menos em parte, verdade. Sob este aspecto, portanto, os romanos foram responsáveis pela "globalização" do mundo conhecido à sua época. O que ocorreu na verdade, com a imposição cultural sobre os povos dominados, é que o mundo foi "romanizado". O elemento que mais caracterizou esse processo de "romanização" talvez tenha sido a obrigatoriedade de os povos dominados falarem o latim, a língua oficial do Império.

Curiosamente, hoje nos vemos obrigados a aprender a língua inglesa. Vivemos num modelo de sociedade em que se prima o consumismo. Para garantir a todos o acesso aos bens consumíveis, o mercado deve se orientar sob a bússola da lei da oferta e da procura, que garantiria a todos, através da livre concorrência, a realização de seus sonhos de consumo. Isso se chama liberalismo econômico. Isso caracteriza o que se chama "american way of life" ou "modo de vida americano". Esta é a cultura que nos tem sido imposta pelos Estados Unidos e que tem sido absorvida pela maioria de nós, sem qualquer resistência que seja. Os romanos "romanizaram", os norte-americanos estão "americanizando". A globalização é, na verdade, a tradução dessa imposição cultural e econômica de proporções planetárias que se configura, numa análise comparativa, na constituição do Império norte-americano. E, como na época de Roma, existem hoje, também, aqueles que se opõem veementemente à cominação imperial e que, como os bárbaros, também foram rotulados: "terroristas". Aliás, bastará muito em breve (se já não basta) algum país se opor aos interesses norte-americanos para ser apontado como uma ameaça à "paz mundial", como abrigo de terroristas ou fabricante de armas de destruição em massa: pretextos para uma sumária invasão e ocupação militar (vide o conflito no Iraque).

Todo império, quando atinge ao máximo as proporções de sua dominação, se fragiliza e se torna, portanto, vulnerável. Assim aconteceu com Roma, que diante da grande complexidade política na qual estava imersa, entrou em colapso por sucessivas crises internas, agravadas por insurreições regionais e por ataques e invasões bárbaras. Estas últimas, em especial, levaram esse colapso ao extremo fazendo o império sucumbir e se desintegrar. Retomando, dessa forma, a análise comparativa, os atentados de 11 de setembro de 2001 evidenciam a fragilidade na qual se encontram os Estados Unidos e pelo mesmo fator que fragilizou Roma: a dificuldade de controlar o mundo através de uma política extraordinariamente complexa que aglutina interesses conflitantes num jogo perigoso que pode culminar no agravamento da hostilidade em relação, justamente, à política externa norte-americana, demasiadamente intervencionista, principalmente por parte dos povos onde se projeta a sombra do fundamentalismo islâmico que nutre o ódio, cada vez maior, aos valores e à cultura ocidentais.

Ao tentar se impor pela força aos povos bárbaros, Roma detonou revoltas que, somadas ao processo interno de decadência, levaram-na à destruição. Hoje, os Estados Unidos, da mesma forma, se impõem aos "bárbaros" de maneira que isso poderá lhes custar sua hegemonia e o que é pior: o que resta da esperança pela paz mundial.

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